Mulher transexual denuncia conduta transfóbica

em abordagem de PMs: 'Fui humilhada'

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Era noite desta quarta-feira e a assistente administrativa Amanda Castro estava em um ponto de ônibus na Avenida Brasil, uma das principais vias do RIo, na altura da Fiocruz, na Zona Norte da cidade. Estavam lá ela e mais uma senhora que aguardava a condução. Uma viatura da PM se aproximou.  Amanda era a única travesti e prostituta no ponto de ônibus e foi a única a ser abordada. Começava ali, ela conta, o seu infortúnio. Ela denuncia ter sido vítima de uma abordagem carregada de transfobia por parte dos policiais militares. Foi tratada no  gênero masculino e forçada a tirar a roupa diante dos olhares atônitos das pessoas nos carros e ônibus.

 

Amanda, apesar de contrariada, afirma ter respeitado o trabalho dos dois policiais que iniciaram a abordagem.  Foi quando um terceiro policial saiu da viatura e, após revistar a bolsa e nada encontrar, anunciou que revistaria as roupas do corpo . Ela conta que, neste momento, explicou que é uma mulher transexual e que deveria ser revistada por uma policial feminina. No curso de capacitação para o atendimento a pessoas LGBTs que toda a corporação recebe, os policiais militares são orientados da seguinte forma: travestis e mulheres transexuais devem ser revistadas por policiais mulheres. 

 

"Quando eu falei que sou trans, foi aí que o caldo entornou. O policial, com tom muito debochado, respondeu "Ah, você é menina, então você é menina. Cadê sua identidade?", ele disse para mim e perguntou sobre minha identidade. Eu expliquei que não tinha a identidade ainda porque o Detran estava em greve, mas eu já tinha minha certidão de nascimento retificada com o sexo feminino", contou Amanda em vídeo na rede social postado pelo jornalista e amigo Alexsander Lepletier.

 

A transfobia não parou por aí, ela lembra. O policial continuou usando o gênero masculino durante a abordagem. "Ele disse para mim: Você não tem identidade então você é homem, você tem pau, você é macho. Nasceu com pau, então é homem", lembra, horrorizada. O policial não ficou satisfeito com as agressões verbais e prosseguiu com a humilhação obrigando a assistente administrativa a tirar a roupa no meio da rua. "Ele me pediu para abrir meu short dizendo que era para ver se eu tinha alguma droga. Aquilo para mim foi o cúmulo. Abri e arriei o short. Depois pediu para ver o que tinha no sutiã. Já que ele queria ver o que eu tinha no sutiã, eu botei o peito para fora. Ele disse: "não precisava disso", respondi que se eu sou homem eu posso colocar o peito para fora. Não queriam me expor ao ridículo, à humilhação, à vergonha?"

 

Amanda conta que o policial continuou o tratamento no masculino durante a abordagem, em tom de chacota. "Aí eu também entornei o caldo  e disse para ele: Se a justiça do Brasil me reconhece como mulher, se me deu direito de retificação da certidão de nascimento , do documento de identidade e de qualquer outro documento que eu vier fazer,  você não é ninguém para me falar que eu sou homem". 

 

Depois da discussão e do discurso empoderado de Amanda, os policiais decidiram voltar à viatura e deixar o local. "Eu fiquei com o constangimento, com o trauma, com a humilhação de uma corporação que deveria servir e proteger. É esse o lema da polícia.  Eu fui protegida? Que perigo eu ofereci para eles ou para alguém naquele ponto de ônibus? Eu passei por uma situação transfóbica, humilhante, maschista. E eu não pude fazer nada porque estavam fardados e achavam que estavam no direito de fazer o que quiser comigo. "Foi uma violência gratuita e inacreditável, uma atitude transfóbica. Quiseram pegar uma travesti para fazer chacota".

 

Amanda e o amigo Alexsander foram prestar queixa na 37° DP (Ilha do Governador), mas, na delegacia, o jornalista conta que foram orientados a não registrar ocorrência. "O policial na delegacia disse que a gente deveria ir até a PM e que não adiantaria registrar ocorrência na delegacia", disse ele. Amanda promete não deixar o caso morrer impune.  Vai procurar nesta quinta-feira atendimento jurídico na Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual da Prefeitura (Ceds-Rio). 

 

"Eu gravei o número de série da viatura. Tenho noção da hora e do local. Eles mexeram com a pessoa errada. Não sou a pessoa mais inteligente do mundo, mas eu tenho formação, sei me virar. Não existe arma maior no mundo que o conhecimento. É você buscar saber quem você é,  qual é o seu papel na sociedade, buscar saber seus direitos e como se portar diante de uma pessoa que é vista como maior ou mais importante que você. Todo mundo tem direito, mas todo mundo também tem dever. Eles têm o dever deles de me revistar, mas não tinham o direito de me humilhar", ponderou.